ENTREVISTA TACIANA BARROS – O PEQUENO CIDADÃO

Entrei em 2013 na onda de ouvir “O pequeno cidadão” (e me parece que todas as outras pessoas do universo infantil também, ou tô enganada?). Fato é que o Pequeno Cidadão é a banda de música infantil mais incrível de todos os tempos. Infantil não. Não só. O pequeno Cidadão faz música pra família inteira dançar e se esbaldar. E quem tá por traz de tudo isso? Edgar Scandurra, Antonio Pinto, Arnaldo Antunes e…Taciana Barros!

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Ela foi do Gang 90 lá nos idos de 80, já foi editora de revista, diretora de arte, transita livremente muito entre os universos visual e musical, faz mil projetos ao mesmo tempo, idealizou o projeto “O pequeno Cidadão” e ainda tem tempo para ser mãe. Inclusive durante os shows, já que seus filhos (Daniel, de 21 anos e Luzia, de 8) também são da banda.

Numa entrevista concedida para o “Rinoceronte que ri” em parceria com o blog “manhê abaixa o som” da Anelise Csapo, a Taciana falou sobre trabalho, filhos, universo cultural e outras coisitchas mais.

Pra ficar ainda mais legal, confere aqui o post que a Marina Novaes escreveu sobre o “Pequeno Cidadão”. Pra ir ouvindo as músicas e saboreando a entrevista…

Olha só que legal:

O pequeno cidadão

 

Você toca vários projetos diferentes ao mesmo tempo, entre eles o “Pequeno Cidadão”. Onde todas essas esferas se tangenciam na sua vida?

Tenho trabalhado como diretora de arte independente. Faço vários projetos entre livros, revistas, sites, cenografia, criação visual de eventos. E isso acontece de forma natural porque, na verdade, sempre foi assim. Na música a parte gráfica é fundamental. Tem cenário, clipes, capas, camisetas, ou seja, existe um universo imenso que é visual e que dá suporte à música. Não consigo pensar num disco sem elaborar a estética geral porque faz parte do meu processo de criação isso de ver o projeto inteiro.

E onde entra a maternidade?

A maternidade nos ajuda a rever o mundo e seus conceitos. Ao repensar a forma de viver imaginando um mundo melhor a criação como um todo acaba sendo influenciada.

Você teve dois filhos em diferentes momentos da vida (o Daniel Barros Scandurra, de 21 anos e a Luzia Barros de 8 anos) e, consequentemente da sua carreira. Também eram momentos distintos para a música no Brasil. Houve muita diferença entre essas experiências por essa questão de tempo?

Sim. Quando eu era mais nova a relação era diferente, meu filho ia junto aonde quer que eu fosse. Tinha aquela coisa de dormir no canto do palco ou dentro do estúdio de ensaio. Mas com o tempo a gente parece querer mais tranquilidade ficando mais exigente com o conforto das crianças. São momentos diferentes também, mas tem uma pegada que não muda muito. Não sou lá uma mãe exatamente diferente da que fui aos 20 e poucos. Os valores não mudam, a vontade de brincar e de curtir continua a mesma.

E a questão da cultura infantil, o que mudou dali prá cá?

Hoje a criança tem mais acesso ao que bem entender. Escuto uns sons que a Luzia me apresenta porque a internet mudou muito o comportamento deles de um modo geral. Tenho que insistir mais pra ela brincar no quintal, por exemplo.

Como é seu cotidiano com os filhos?

Normalmente almoço com eles e passamos mais tempo juntos à noite e nos finais de semana. Durante o dia nos falamos bastante também por celular ou SMS, mas só pra resolver coisas pequenas. Com meu filho mais velho, como ele já é adulto temos também momentos legais visitar exposições, jantar, trocar muita ideia, ensaiar…

Como é a sua relação entre trabalho e maternidade?

Acho mesmo uma loucura conciliar trabalho com filhos. Quando se trabalha com criação as ideias aparecem nas horas mais inusitadas. Parece que, enquanto alguns conceitos não se formam, eles ficam rodeando minha cabeça noite e dia até algumas peças se encaixarem e a estética nova finalmente aparecer. Sou mãe desde os 23 anos, por isso a maternidade é muito presente em todo o meu processo de amadurecimento pessoal e artístico. As coisas boas dão trabalho mesmo! Tem horas que sinto saudades dos filhos e outras de trabalhar sossegada, mas essa confusão é inevitável. Por experiência própria, quando criança, às vezes ficava triste com minha mãe indo trabalhar, mas também achava um terror a mãe de uma amiga que só ficava em casa e era muito sem assunto. No fundo eu tinha orgulho da minha mãe ser diferente.

Já tinha passado pela sua cabeça armar algum projeto infantil? Como surgiu essa a ideia dessa parceria?

Sempre gostei muito de criança e isso de brincar e entrar no mundo deles. Faz muito bem porque parece que descansa a cabeça. Depois de gravar meus discos e do solo que fiz com o Suba ficou um vazio e uma vontade de fazer algo diferente. Daí surgiu essa ideia e fiquei uns meses deixando ela num cantinho do meu cérebro. Até que um dia convidei o Edgard, que topou na hora. Depois encontrei o Arnaldo Antunes num trabalho e ele também topou de cara. Então pensei no Antônio Pinto que já foi se animando e, em apenas um ano demos início ao projeto.

Rola uma parceria de longa data tanto com o Arnaldo Antunes, desde a época da Gang 90, quanto com o Edgard Scandurra, mas o que mudou no momento atual e na relação com o Edgar, que é pai do seu filho mais velho?

Nós ficamos ainda mais amigos, e nossos filhos unidos. A relação que se formou pelo encontro e convivência no projeto nos proporciona muita diversão por meio da música. Não tenho nem como descrever porque são momentos de amor mesmo.

Parece haver uma continuidade da irreverência do Gang 90 e as absurdettes no Pequeno Cidadão. Como isso se integra dentro da sua trajetória musical?

Quando sugeri o slogan “Música Psicodélica pra Criança” era para deixar mais claro o caminho que estávamos traçando porque trouxemos nossas influências e afinidades para esse projeto, e o rock veio junto. O meu estilo acaba se imprimindo em qualquer banda que eu toque, assim como o dos outros músicos, e isso que é o legal de uma banda, poder trabalhar com outras personalidades e dessa mistura sair algo novo.

O Pequeno Cidadão não é só música pra criança e sim para a família toda, um conceito musical que acaba com a fronteira entre música infantil e música para adulto. Por que tão poucos músicos se dispõe a ultrapassar essa marca?

Não sei quanto aos outros, mas para nós o fundamental é fazer um som que a gente curta tocar. Poder cantar a música do “Pirou na Batatinha” e ouvir no meio um solo do Edgard é um luxo e uma alegria para meus ouvidos, e imagino que isso aconteça com os pais que estão na plateia. Trabalhar com o Antônio em estúdio também é uma experiência densa e forte. O cara é super detalhista e muito afins de fazer sempre o melhor som.

Rola uma certa simplicidade sonora que atinge muito do que é produzido para o público infantil. Qual o prejuízo para as crianças nesse sentido?

Existe música ruim pra criança assim como existe música boba e sem graça pra adulto e que estoura nas rádios. Mas acredito que quem ouve música com mais qualidade no carro, em casa, nas festas acaba educando o ouvido dos filhos. Não tem quem não goste de uma música bem tocada. Acho que é que nem salada: se os pais gostam, então a provavelmente a criança também vai gostar. O ouvido é educado assim como o paladar, para poder entender o novo e aceitar um tempero diferente.

E como uma sonoridade musical mais complexa se desenvolve no universo cultural da criança?

Espero que ajudando a abrir os ouvidos para refletir sobre os temas introduzidos. Tocamos pelo Brasil inteiro, as crianças entram em sintonia muito rapidamente, tanto que o final do show é sempre com todos dançando e cantando – inclusive pais e avós, quando não até os seguranças de boca de palco.

E como é a receptividade do público quando se integra essa qualidade ao repertório infantil?

No nosso caso, com relação à criação, só temos prazer. Aquelas dificuldades que eram mais comuns nos anos 80 não rolam mais porque a gravadora é nossa e a editora também, o show é do jeito que a gente quer: 23 pessoas, cenografia, vídeos, figurino, os desenhos das capas dos produtos. Tudo vem de uma estética que todos nós gostamos, mas isso é uma batalha danada! Muitos amigos ajudando e nós todos virando uma família gigante, com os mais diversos artistas participando. A receptividade é muito boa, não imaginávamos que poderíamos alcançar tantos ouvidos com esse som. Agora, no segundo disco, entramos com mais liberdade, conhecimento de causa e densidade.

Como foi a transformação das músicas do “Pequeno Cidadão” em livros? As ilustrações dialogam muito com o conteúdo das músicas, esse era um projeto desde o início ou essa possibilidade foi se desenhando com o desenrolar do projeto?

Foi acontecendo naturalmente devido às letras que são muito boas de ilustrar, mas também por causa dos desenhos que o Jimmy Leroy criou pra gente – que é meu grande parceiro de projetos nas artes gráficas, sou maior fã e aprendi muito com ele. O Jimmy tem uma participação fundamental, totalmente da banda, só que na área visual.

Como você vê a conexão entre som e imagem no universo da arte?

Definitivamente não consigo separar som de imagem. Na minha cabeça isso vem sempre junto. Só não vejo quem seria Eco ou Narciso nessa área, mas tanto na música e como na arte a união é feliz.

Seu filho toca baixo no Pequeno Cidadão e é artista plástico, onde trabalha com palavras, poesia. Como é essa interação no cotidiano de vocês?

Ele traz muita informação, nos ensina muito com suas referências e cria coisas bonitas. Nosso dia a dia em casa é bastante divertido, mas também somos um bando de obsessivos, trabalhando o tempo todo.

Como podemos estimular o gosto musical e cultural de maneira geral nas crianças?

Ouvindo coisa boa com eles e conversando sobre os sons. Mostrando os detalhes e as diferenças – mas sem se impor – a melhor postura é a de companheirismo com troca de conhecimento e de questionamentos. A música é fundamental para o indivíduo. Ela nos ajuda em momentos difíceis, também amplia os de felicidade, traz à tona algumas emoções escondidas… São infinitas as possibilidades de crescimento através da música. Isso só de ouvir, se pensarmos ainda em tocar um instrumento então, nem se fale! Ainda não inventaram um objeto mais companheiro do que um violão.

Quais os sons que você recomenda para os pais ouvirem junto com seus filhos, nessa pegada de música para família toda?

Os “Saltimbancos” eu acho fundamental. Tem também “Palavra Cantada” e “Adriana Partimpim”, entre tantos outros fazendo coisas lindas! Impossível citar tudo, esse universo é imenso. Eu adoro o CD do André Mehmari (MPBABY vol.10) tocando Beatles pra criança, por exemplo. E pode rolar na vitrola um Michael Jackson, Miles Davis, Jimi Hendrix, Secos & Molhados, Itamar Assumpção, Janis Joplin, João Gilberto e assim vai…

O que você costuma escutar hoje em dia?

Ouço muito no carro o que estou trabalhando no momento e aproveito pra estudar as músicas. E as minhas maiores influências são: Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Miles, Thelonius Monk, King Crimson, Gang of Four, Sly and the Family Stone e tem muito mais nesse baú, não tem como citar tudo, de forma alguma.

Vitrola ou MP3?

Vitrola pra ouvir, sempre! Não curto nem cd, e mp3 só pra quebrar galho, estudar alguma coisa rapidamente, passar uma música pra alguém da banda, essas coisas mais mundanas.

Ficou na vontade de ouvir o Pequeno Cidadão ao vivo? Então se prepara que logo mais tem shows por aqui. Clique aqui para conferir nossa programação!

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