ENTREVISTA: Irene Nagashima, do CineMaterna

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Era início de 2008 quando um grupo de mães, cansadas do isolamento social no pós-parto, decidiu se organizar para iniciar uma pequena revolução: assistir a um filme no cinema com seus bebês à tira-colo! Nada demais, mas muito mais que isso. Dessa primeira sessão de cinema nasceu um projeto, que cresceu, cresceu, cresceu e se tornou uma realidade para outras milhares de mães. Hoje presente em diversas cidades brasileiras, o CineMaterna é uma possibilidade real de diversão associada a trocas de experiências entre mães. Já ouvi diversas vezes alguma mãe dizendo “O CineMaterna me salvou”, e eu facilmente me incluo nessa lista. Sabe por quê? Por que o CineMaterna é incrível!

E por trás dessa maravilha, 3 mães guerreiras e empreendedoras, entre as quais…Irene Nagashima! Sempre disposta e sorridente, ela diz que “foi escolhida” pelo cinematerna. E o que era diversão virou trabalho, mas trabalho com diversão! Afinal, ir ao cinema e ver um monte de bebês fofos é sempre bom demais…

1) Quando caiu a ficha de que seria muito difícil conciliar a antiga profissão com a maternidade? E como rolou a decisão de mudar de vida, de trabalho e maternar ativamente?

Não foi exatamente assim comigo. Era autônoma e com o nascimento do Max, meu primeiro filho, eu já tinha diminuído drasticamente o ritmo. Quando estava começando a retomar, o CineMaterna me colocou na encruzilhada. Logo na primeira semana que lançamos o CineMaterna oficialmente, passei sábado e domingo trabalhando, rs. Era um novo negócio, exigia tanto quanto um bebê recém-nascido… e era! Como era autônoma, apenas deixei de procurar novos clientes. Já tinha diminuído o ritmo, não houve grandes conflitos. A única questão era econômica: o CineMaterna não só não remunerava como exigia certo investimento.

2) O CineMaterna surgiu de uma vontade de voltar à vida social e maternar ao mesmo tempo. Quando você se deu conta que essa vontade podia virar um projeto sério e se tornar seu novo trabalho?

A repercussão sobre aquilo que fazíamos como nosso lazer materno foi enorme. Tendo sido assunto em matérias de jornal e TV, muitas pessoas queriam saber onde divulgávamos as sessões, o que não acontecia. Era algo “entre amigas”. Vislumbrei que aquilo era uma necessidade efetiva das mulheres e não somente de um pequeno grupo. Desenhei o projeto, me juntei com mais duas mães que frequentavam as sessões e apresentamos à rede de cinemas.

3) O objetivo do CineMaterna é, desde o início, estimular a sociabilização e a troca de experiências entre mães nos primeiros meses da maternidade, período esse de grandes dificuldades para muitas mães, em vários sentidos. Como foi esse período do pós-parto pra você?

O primeiro trimestre foi complicado. Os dias passavam e eu não conseguia muito bem “voltar à realidade”. Estava meio perdida entre as fraldas e mamadas, solitária, sentindo falta da minha vida e de mim mesma. Só que mal me dava conta disso. O que me salvava era a internet. Só fui entender no quarto mês, com a ajuda de um amigo e pediatra.

4) Do que você mais sentiu falta durante o seu pós parto? E do que você sente falta hoje?

Sentia falta de mim mesma, da minha vida. Mas tinha um ser novo nos meus braços, e isso acabava compensando, o ganho era maior que a perda. De concreto, senti muita falta de ir ao cinema. Lembro que meu filho nasceu perto da Mostra Internacional de SP e eu não podia nem passar pelo Conjunto Nacional, onde estava a Central da Mostra, para não ficar com vontade de entrar no cinema. Pena que não existia o CineMaterna, rs.

5) E qual a importância do CineMaterna nesse seu processo e nos meses que se seguiram, em ambas as maternidades?

O CineMaterna surgiu no quinto mês do Max. Talvez até fosse uma resposta ao processo de reclusão, uma volta à ativa. Os seis meses seguintes correram em função da organização das sessões com o grupo de mães que só aumentava. Saímos do virtual e os encontros salvaram nossas vidas e casamentos, rs. Com o Eric, meu segundo filho, ir ao CineMaterna com ele recém-nascido, era usufruir plenamente da estrutura que eu mesma tinha criado. Foi tão bacana! Até escrevi sobre isso no blog.

6) Que dicas você daria para uma mãe em período de pós parto?

Não sei se há dicas tão boas assim, pois cada uma vivencia a maternidade de forma tão única! Mas acho importante compartilhar: ouvir e falar, presencial e virtualmente. Hoje, além do CineMaterna, há grupos de amamentação e de pós-parto em várias cidades. A troca de experiência nos traz segurança, tira nossas dúvidas, nos faz sentir mais “normais” nesta fase tão especial da vida!

7) Na sua opinião, faltam espaços voltados para mães e bebês, falta acolhimento por parte da sociedade? E por que tão poucos projetos nesse sentido são desenvolvidos? Há espaço para outros projetos que aliem cultura, lazer e maternidade?

Comecemos pelo básico, trocadores nos banheiros dos estabelecimentos. São raros os restaurantes que têm um (normalmente no banheiro feminino, aliás). Não faz tanto tempo assim que os shopping centers começaram a dar atenção para este detalhe. Mas tenho a impressão de que estamos em um período de novas iniciativas: dança, yoga, canto, teatro, cinema, sempre com bebês, estimulando o vínculo. O diferencial está em valorizar a protagonista da relação: a mãe

8) Além do CineMaterna, quais as alternativas de lazer e cultura você sugeriria para as mães puérperas? Como aliar vida social e maternidade ativa? O que uma cidade como São Paulo pode oferecer de bacana nesse sentido?

Em São Paulo, há várias opções: grupos de apoio à amamentação e pós-parto (Matrice, Casa Moara, Espaço Nascente, GAMA, entre outros), dança (Dança Materna), canto (Canto Materno), baby yoga, musicalização e natação para bebês. E devem ter mais atividades que nem sei.

9) E como você vê a importância das redes de solidariedade materna? O CineMaterna pode, na sua opinião, ser pensado como uma dessas redes?

As redes são um apoio, um local de troca, seja virtual ou presencial. Sim, o CineMaterna é uma rede de apoio presencial. Vemos vários grupos de amigas que combinam e vão juntas ao cinema. Mas existe também o contrário, mulheres que vêm sozinhas e passam a ter um grupo de amigas e a fazer outras atividades que não apenas ir ao cinema. Nosso maior objetivo é reintegrar a mãe (puérpera) à vida social, e é desta forma que o atingimos!

10) Porquê cinema?

Ah, comigo, não teria como ser outra forma de cultura. Sou cinéfila inveterada. E mostrou-se oportuno: além de ser um programa acessível geográfica e economicamente falando, é uma forma de lazer bastante comum para as pessoas. Um bom filme tem a capacidade de nos transportar para outro mundo por duas horas, trazendo um merecido descanso à mente.

11) Que filme gostaria de um dia ver exibido no CineMaterna?
Como o CineMaterna tem a proposta de exibir filmes atuais, em cartaz, lamento apenas quando perdemos a chance com algum título que traz a maternidade como tema de fundo. Por exemplo, agora no recesso, entre dezembro e janeiro, estreou um filme cujo enredo era sobre um casal e sua descoberta da vida com um bebê. Saiu de cartaz antes que voltássemos com as sessões em janeiro. Uma pena.

12) E de cinema infantil, o que você curte? Que filmes recomendaria para as crianças (não necessariamente em cartaz)?
Adoro as animações atuais, mas os filmes do Michel Ocelot (Kiriku e Azur & Asmar, entre outros) trazem uma estética e histórias muito originais e diferenciadas e são interessantes de serem apresentados às crianças.

Por aqui também adoramos Michel Ocelot. Leia aqui sobre “Kirikú e a feiticeira”.

13) Quais os filmes mais bacanas que você já mostrou para seus filhos e o que sonha poder mostrar?
Ambos começaram a curtir cinema muito cedo, com dois anos. Concentram-se e assistem o filme todo, incrível. Claro, ainda veem filmes infantis. Não tenho nenhum título em especial, mas fico imaginando o dia em que descobrirão o cinema “de adulto”: como será, qual o filme e como conversaremos sobre o que viram.

14) Fazendo um balanço: o que a maternidade mudou na sua maneira de encarar a vida?]

Mudou minha perspectiva de vida, todos os meus pensamentos incluem meus filhos. E mudou meu sentimento de empatia frente às grávidas e puérperas. Parece uma vida mais restrita, mas na verdade, é mais livre.

E viva o CineMaterna! Viva o cinema! Viva poder sair de casa pra encontrar as amigas e assistir um filminho com a cria no sling! Depois do cinematerna, o pós-parto nunca mais será como antes…Ainda bem!

Gsotou? Então leia aqui como foi a minha experiência no CineMaterna!

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